O que é o Família em Contos?

O Site Família em Contos dedica-se à educação, cultura e entretenimento. Pais e educadores encontram aqui histórias para dialogar com as crianças de modo atraente e criativo.

O Portal do Professor do MEC incluiu o Site Família em Contos em sua página.

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Boa parte dos contos deste Site encontram-se reunidos no livro Família em Contos, que pode ser adquirido na Editora Cultor de Livros.

O Zégas


Família Larleto é formada pelo casal Júlio e Mariana e seus 8 filhos. Pode iniciar a leitura dos contos por qualquer um deles. Mas, desejando conhecer melhor os membros e o ambiente dessa família, tenha um pouco de paciência e leia os contos iniciais. Não receie ser apresentado ao Zégas, que é bastante aprontão, pois no fundo é um bom sujeito.

O Zégas tem treze anos e em seus olhos brilham o ardor, o entu­sias­mo e a marrudice. É magrelo de ruindade, dizem. O cabelo castanho claro eternamente indisciplinado referenda-o como cara invocado que não leva desaforo para casa. Acham que tem fogo no rabo, pois não para quieto. Seu português é sofrível e não está nem aí para melhorá-lo, apesar das insistentes cor­reções dos pais (tem vergonha de falar bonito; a turma da rua não perdoa esses tipos).

Suscetível ao extremo, salta da alegria incontida à casmurrice retida em segundos. É sincero, leal e teimoso... Teimoso mais do que ele só burro velho, bem velho. Não gosta de banho nem de matemática. Tem coleções de tudo: maços de cigarros vazios, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, selos, figurinhas... Todas inacabadas. Gosta de andar descalço, sem ca­misa e com calção de bolso profundo onde carrega o impensável: bolinhas de gude, pião, fieira, munição de pedras para estilingue e, ultimamente, um pente, porque anda enamorado da atriz que viu na TV (pode topar com ela na rua; nunca se sabe...).

Durante a semana anda melhor vestido por imposição profissional: é office-boy do Grande Magazine – Loja de Departamentos. Teimou que queria ser bói e tanto fez que obrigou o pai a conseguir mil autorizações para emancipá-lo e poder ocupar o cargo, a título de estagiário, menor aprendiz e outros buracos da lei. O pai permitiu que esse seu rebento trabalhasse para ti­rá-lo da vadiagem, já que estudar não é muito com ele não.

O nome do moleque? Ah, sim: José. É o encarregado de cuidar do pequeno galinheiro da família, que não lhe poupa, entre outras, das seguintes fainas: recolher ovos, buscar ser­ragem nas marcenarias para forrar o chão sob o poleiro, pegar folhas de verduras em duas feiras do bairro – da Rua Maria José e da Praça Roosevelt – para alimentar o populacho do quintal. E justamente por causa do encargo de cuidar das galinhas é que os seus amigos começaram a chamá-lo de Zé das Galinhas ou simplesmente Zé Galinha.

Quebrou a cara de vários deles pela troça, e percebeu que depois disso o epíteto se alastrou mais que tiririca em terra adubada; então, deixou de partir para o pau e os amigos, ao perceberem que ele não estava nem aí com a brincadeira, esqueceram do apelido. Para o gasto do dia-a-dia a turma chama-o de Zégas, redução de Zeguinha, ou simplesmente Zé, aliás, o mais utilizado. Esses apelidos extravasaram a esfera do bairro e derramaram-se na empresa. Foi culpa dele mesmo, que organizou um racha de futebol entre as duas turmas. Em casa chamam-no apenas por Zé, ou Zezinho.

Listar-lhe os defeitos é canja; as virtudes, um aperto. Mas como meter a picareta é fácil, e canseira o edificar, mordo a língua e calo o bico. Que falem os fatos... Leia as histórias no link "Lista dë Contos"

Quinta-feira
Abr222010

« O Namoro »

     Verinha regressa da escola com ar de mulher fatal. Tem um brilho nos olhos, que esconde algo de mau. Joga os cadernos na poltrona e diz à mãe, que põe a mesa do almoço:

     – Mãe, um menino da minha classe me perguntou se eu queria ficar com ele! Posso?!
...

     – Que idade ele tem?!

     – Nove anos.

     Pasma, Lídia hesita sobre o que responder à filha de oito anos, e pensa por onde andam as coisas: viu namoro precoce na televisão e ouviu falar de alguns casos, mas não formou opinião sobre o assunto, pois não o imaginara batendo à sua porta.

     A menina aguarda a resposta. Com receio de ser antiquada e não compreender a evolução dos tempos, a mãe coloca em dúvida suas convicções sobre o assunto, e afasta o mau pressentimento que lhe veio à cabeça. Então diz:

     – Po...pode sim, filha... Mas só com ele!

     Oferecida a resposta, a mãe retorna aos afazeres domésticos sem a tranquilidade de sempre. Remói aqui, remói ali; projeta uma coisa e outra, acrescenta uma pitada de futuro e perde a paz. Almoça só, pois a menina espirrou com o prato para diante do aparelho de televisão do próprio quarto. Lídia, inquieta, atravessa a tarde. À noite, mal chega o marido do trabalho, diz-lhe à queima-roupa:

     – Beenhê, a Verinha me perguntou se podia ficar com um menino da classe dela! Que acha?

     – Ficar! O que é isso?

     – É uma espécie de namoro relâmpago, sem compromisso de estabilidade: hoje com um, amanhã com outro...

     – Ah, ah, ah... Essa é boa! E o que você respondeu?

     – Disse que poderia, mas só com um! Achei que assim seria mais fácil controlar.

     – Bem, então está resolvido... Querida, você comprou cerveja pro jantar?

     – Comprei.

     – Boa! Hoje tem jogão de bola na tevê.

     Amanhece outro dia. Lídia acorda com a angústia ainda aninhada no peito e a permissão dada à filha entalada na garganta. Enquanto prepara o café da menina, que se apronta para a escola, julga ser o marido, que partira para o trabalho, um avoado ao não pressentir o vírus que penetrou na filha, e pronto agirá após a fase de incubação. O que fazer? Desautorizar a menina sem argumentos convincentes? Tarefa impossível; Verinha sabe defender suas posições e contra-atacar com respostas certeiras e infindáveis perguntas que acuam em xeque-mate. Como traduzir à filha as razões de tanta inquietação?

     Enquanto observa a menina a tomar o café, Lídia desliza entre os dedos, feito leque que abre e fecha, as páginas do livro que em vão tenta ler. A dança das páginas quebra o silêncio da sala e prendem os olhos da pequena. A mãe, sem saber como abordar o assunto do namoro, busca um pouco de paz convencendo-se de que exagera na apreciação da situação; que nada acontecerá a apenas duas crianças; que tal relacionamento será inconseqüente. Sua testa se franze em tais pensamentos. Diz para si:

     – ... Daria um montão de razões para impedir esse namoro; mas serão sustentáveis hoje em dia? Seria injusta se a proibisse?

     Em tais conjecturas, soa a buzina da perua escolar em frente ao prédio. Verinha despede-se da mãe e corre até o elevador. Súbito, Lídia lança uma pergunta:

     – Filha, e o que você fará ao ficar com ele?

     – Ah, mãe, farei o que as minhas amigas fazem: beijar, abraçar e outras coisinhas. Tchau! – penetra no elevador.

     E lá se vai para a mãe a relativa paz conseguida instantes atrás:

     – Meu Deus, o que fazer?

     E num movimento de desolação, Lídia cerra fortemente as pálpebras e debruça o rosto sobre os braços cruzados na mesa. Sente abaladas suas convicções:

     – Tá tudo errado o que aprendi dos meus avós, e que ainda guardo no coração? Porcaria de dúvida...

     Em meio à angústia vem-lhe a inspiração que a faz levantar repentinamente a cabeça:

     – Mariana! Ela poderá me ajudar! Conheço algumas de suas filhas; e se são ótimas, não é por acaso!

     Animada a buscar conselho – dizem que é o primeiro ato da prudência –, Lídia corre ao telefone e conversa brevemente com Mariana, que entende o problema e se dispõe a ir visitar a amiga em seguida.

     Mas Lídia facilita as coisas indo ela a casa de Mariana, na Rua Santo Antonio. Chega às dez da manhã e, enquanto acrescenta outros detalhes ao relato antecipado no telefonema, é servida de chá. Por fim, diz:

     – O que está acontecendo com as crianças, Mariana?

     Mariana, de olhos fixos no chá que põe na xícara, diz:

     – Imitam as jovens que veem na televisão e em outras mídias...

     – Mas, Mariana, a Verinha só tem oito anos! Nunca me passou pela cabeça que nessa idade pudesse ter problemas sentimentais, ou de atração por meninos! – o chá está quente e Lídia, após o comentário, põe-se a esfriá-lo rodopiando a colherinha.

     – Lídia, o que é instigado desperta; o que não é protegido se perde... – Mariana continua atenta ao chá que serve para si.

     – Despertar o que? Perder o quê? – torna a perguntar Lídia.

     – Despertar a sensibilidade: sentidos, instintos, desejos e paixões. É preciso educar o que desperta.

     O chá está quente e Lídia toma-o aos poucos, enquanto pensa nas palavras de Mariana. Após um breve silêncio, pergunta:

     – Como educar forças cegas?

     – Lendo o certo e o errado em nosso agir; ganhando virtudes ou hábitos bons, pois ajudam a perseguir o certo.

     – Oh, Mariana, sei que há riscos no namoro; mas será que há tantos perigos nesse despertar da sensibilidade?

     – Penso que sim, Lídia. Se a todos custa dominar as paixões, pior é para as crianças pela dificuldade que têm de perceber o bem e o mal em suas ações. Namorar exige compreender as dimensões do próprio corpo, inseparável da alma. Castidade e virgindade fazem parte dessa compreensão; tenho pra mim que namorar sem esse entendimento é voar à noite sem instrumentos; é partir para longa e arriscada viagem sem suprimentos.

     – Mas, Mariana, no namoro as pessoas procuram completar-se! Se buscamos algo é porque carecemos dele!

     – E do que carecemos, Lídia? Há carências que enriquecem e satisfações que matam... Só a educação da inteligência e dos afetos fazem descobrir as verdadeiras carências. Sentimentos, emoções e paixões são incapazes de julgar e necessitam da luz da inteligência para não nos empurrarem a escolhas erradas, sempre frustrantes. A sensibilidade apenas se inclina ou não, gosta ou desgosta das coisas. Quantas experiências tristes, por vezes irreparáveis, vem do seguir os sentimentos e as paixões sem ajuizá-los! Gostar e amar são dois verbos que pertencem a planos diferentes, Lídia!

     – Ai, Mariana, não confunda a minha cuca!

     Mariana ri.

     – Lídia, gosto é resposta da sensibilidade, que instintivamente busca a experiência sensorial prazerosa. Já a ação de amar é do espírito, da parte da alma que se chama vontade. Quando a inteligência descobre verdades e a vontade se inclina a ela, esse inclinar se chama amor. Quem ama se dispõe a gastar-se pela pessoa ou ideal amado; quem ama não busca o proveito próprio, mas o do outro: quem ama sai de si. Já o gostar é voltar-se a si, o que não é mau quando se busca o reto e verdadeiro, o que muitas vezes não ocorre. Amar e gostar podem coincidir ou não! Certa vez, recolhi sob o viaduto da Rua Major Diogo uma mendiga que jazia de inanição, e levei-a ao Pronto Socorro do Hospital Municipal. Fiz isso porque a amava, pois me inclinava àquilo que a inteligência me mostrava como um bem; mas minha sensibilidade não sentia gosto algum, mas repugnância diante das fezes e urina que escorria de suas vestes podres. Entende, Lídia?

     – Não tenho dúvidas, Mariana, que a inteligência e a vontade devem comandar nossas ações. Mas não faltaria autenticidade ao deixarmos de ser coerentes com os próprios sentimentos?

     – Lídia, se somos racionais, a nossa autenticidade está em seguir a inteligência! Sentimentos vão e vêm e podem não ser dóceis à inteligência e à vontade; agir apenas baseados neles tem um nome: sentimentalismo, que é postura inadequada já que o domínio deles não está assegurado.

     – Sei disso. Penso que todos já nos arrependemos de seguir impensadamente os sentimentos.

     – Os sentimentos são bons, Lídia, quando nos empurram a realizar boas ações! Jesus Cristo agiu muitas vezes sob forte emoção: chorou, apiedou-se, condoeu-se, irou-se! Foram todos sentimentos santos, porque alicerçavam ações mostradas pela sua inteligência.

     – Sabe, Mariana, mesmo percebendo o erro muitas vezes seguimos os impulsos da sensibilidade.

     – É nossa pobre condição, quando carecemos de virtudes. Mas abraçar o erro sempre nos fere profundamente.

     Um silêncio momentâneo faz as amigas refletirem que a vida é laboriosa; não basta deixar-se levar. Mariana conclui seu pensamento:

     – Lídia, não faço apologia da insensibilidade! Sem os sentimentos seríamos seres amorfos, espécie de mortos-vivos! O posto da afetividade é central na vida humana: intensificam as nossas tendências! Realmente, Lídia, as coisas nos saem melhor quando feitas com sentimento. Mas o não pensar, faz colocar os sentimentos em coisas que não valem a pena.

     – Vejo verdades em suas palavras, Mariana. Por estes dias cheguei à conclusão de que há pessoas que cuidam do cão como se cuidassem de um filho, exorbitando seus sentimentos por uma realidade boa, mas que não merece tanto – afirma Lídia.

     Nesse momento, o vira-lata Babaréu penetra na sala em direção à folia do quintal; Mariana recolhe-o no colo, acaricia seu focinho e solta-o para unir-se ao alvo: Tonico e Glorinha. Lídia, que também acabara de acariciar a cabeça do cachorro, diz:

     – Está bem claro para mim que os sentimentos devem ouvir de nós um “sim” ou um ”não!”. Estamos tão acostumadas a dizer sempre o “sim”. Quando a gente se encanta por alguém, é preciso dizer ao coração: – Ei, meu chapa, você já comprometeu seu afeto com outra pessoa! Portanto, refreie essa paixão antes de cometer injustiças.

     Mariana ri do modo plástico de falar de sua amiga e conclui:

     – Agora se esse coração não tiver compromissos assumidos, talvez possa surgir daí a ocasião de enamorar-se e de descobrir um verdadeiro amor...

     – Ai, Mari, vejo que esses danados de sentimentos são grandes companheiros, mas se passam a reger a gente, estamos fritas, não? Outro dia comprei uma bolsa porque me encantei com ela. Em casa, diante das outras três bolsas que tenho, caí na conta de que agi por impulso!

     – Os publicitários sabem que o apelo consumista deve falar aos sentimentos... A inteligência não é trouxa e logo percebe a arapuca das falsas necessidades que eles criam! – afirma Mariana.

     – Mariana, é de pequenino que se torce o pepino! Esta nossa conversa está ordenando as minhas ideias e desvelando a razão das minhas inquietações. Sinto-me mais segura em minhas convicções. Pressentia algo ruim nesse tal de ficar... Ai, meu Deus, por que desconfio tanto de mim!? Minhas angústias nunca são gratuitas... Agora resta saber como proteger minha filha de tudo isso, que sempre me foi tão óbvio, mas que vinha titubeando em aceitar por falta de uma reflexão mais apurada.

     Silêncio. Ambas reconhecem a dificuldade da resposta. Mas no rosto de Lídia a expectação se enche de esperança. Mariana sonda o coração à procura da melhor resposta e diz:

     – Lídia, não conheço bem a sua filha, e cada pessoa é um mundo que se chega por caminhos próprios.

     – Sei disso, Mariana, mas deve haver um fundo comum nas crianças. Há pouco você falou em despertar forças cegas, que as leva a perder o que é próprio da idade...

     – Temos que proteger o mundo das crianças dos inescrupulosos e desaforados, que o invadem corrompendo.

     Lídia conclui a frase:

     – É tão frequente jogarem verdades sobre as crianças antes de que possam compreendê-las. Percebo que a verdade edifica quando se compreende a resposta. Sempre desconfiei de que há descobertas que fazem mal às crianças...

     – Sabe, Lídia, as crianças necessitam de verdades ou luzes sobre si mesmas, e sobre o mundo ao seu redor à medida que solicitam. Antecipar o que não é desse mundo cria medos e deforma a consciência delas.

     – Não será porque as verdades tantas vezes superam nossas forças e parecem impossíveis de serem abraçadas, Mariana?

     – Uma verdade é abraçada quando é amada. Temos que aprender a amar as verdades. Convicções nascem de verdades amadas. Hoje, infelizmente, os homens odeiam as verdades sobre si mesmos.

     – Ai, ai... É tão difícil querer as verdades que custam vivê-las, Mariana.

     – Lídia, você que ama os ditados, já ouviu que “quem não vive como pensa, pensa como vive!”. Me parece que não há outra saída para a condição humana.

     – Pão, pão; queijo, queijo; sim, sim; não, não! Dar a cada coisa o seu nome: o que é certo é certo; o que é errado, é errado. É isso que você chama de coerência, Mariana?

     – Só assim a gente dá certo, Lídia. Somos criaturas; não Deus.

     – Mariana, como ter as virtudes necessárias para sermos coerentes? Ah, como gostaria de ter virtudes: ensinaria minha filha com o exemplo que, como já foi dito, persuade sem retórica e convence sem debate...

     – Não é fácil viver o que se ensina; sinto na carne que é a primeira luta dos pais, Lídia.

     – Ai, como me dói pensar que tenho reduzido as minhas responsabilidades de mãe apenas ao alimento, abrigo e alfabetização. Que curto é o meu horizonte! Temo estar atrasada e de ter errado demais – afirma Lídia.

     – Os pais erram muitas vezes – diz Mariana. Minha lista de desacertos é infindável. Mas o amor apaga os erros. Se a sua filha se sentir amada, abraçada, beijada e muito exigida – já que não é possível evitar o sofrimento –, só terá motivos para agradecer a mãe que tem.

     – Mesmo amando me vejo sem forças para exigir, Mariana! Agora percebo que se não há exigência não há amor...

     – Também me sinto fraca para exigir, Lídia; mas aprendi que a nossa fortaleza é emprestada de Deus.

     Lídia inspira o ar pausada e profundamente; tem o rosto iluminado pela paz de quem reencontrou a rota velada por falsos modismos. Sorrindo, olha para os dedos das mãos que brincam cruzados sobre as pernas e diz:

     – Grandes esforços necessitam de grandes motivos! Meu grande motivo para evitar à minha filha as experiências que ainda não deve ter é a sua felicidade.

     Mariana ouve em silêncio; Lídia continua:

     – Vejo que a relação afetiva homem-mulher, numa fase da vida em que sobram inexperiências e se desconhece o que é o amor, reduziria tudo a sexo, que não é o amor, mas uma das consequências dele.

     – É confusão devastadora, Lídia. No princípio exalta e obstina, mas depois causa tédio. A sensualidade embota o coração e faz perder a alegria das coisas simples da vida. Muitos jovens, no vácuo dessa veloz descendente, não encontram a alegria no simples e partem para formas desumanas de prazer.

     – Que íngreme e traumática deve ser a subida de retorno, Mariana! Muitos não encontram forças para retornar – conclui Lídia.

     Atentas às conclusões a que chegam, as amigas esquecem o chá, que esfriou.

     – Mariana, como explicar à minha filha que deve esperar para ter relação afetiva com um rapaz?

     – Diga a sua experiência, Lídia. Nós namoramos, não? Agradeço a meus pais por não me deixarem preocupar com namoro enquanto o meu corpo não sofrera as transformações da puberdade. E quando me tornei moça, minha mãe soube me explicar a importância da relação afetiva na vida de uma jovem. Assim intuí que enamorar-me seria um modo elevado de viver... Não é verdade que os enamorados estréiam o mundo, Lídia?

     – Puxa, se é verdade! Também namorei alguns colegas!

     – Você disse que namorou alguns colegas? – pergunta Mariana.

     – Sim, quando as coisas começavam a dar errado, não havia mais solução que terminar...

     Mariana completa a ideia que tinha no coração:

     – Talvez não íamos a fundo nas razões que nos levavam a terminar, mas creio que ali já se revelava que a descoberta do outro – sentimentos, ideais que o moviam –, que é a razão principal do namoro, assinalava que estávamos nos distanciando da felicidade. Era melhor não seguir por estrada minada; a busca pelo outro devia continuar – conclui Lídia.

     As amigas fazem silêncio e rejuntam partes dos diálogos. Mariana segue:

     – Lídia, você falou sobre confundir amor com sexo. Namorei alguns colegas e sempre exigi que não haveria relações sexuais antes do casamento. Notei que os que foram embora, porque não concordavam com isso, nada entendiam de amor e só percebiam na mulher o corpo, e não o espírito, que é onde reside a felicidade, e portanto o verdadeiro amor. Ao ouvir tantas vezes minha mãe dizer que “valemos pelo amor que temos na vida”, compreendi que o amor dos que se foram não era eu, mas a satisfação de suas paixões. Idiota teria sido eu de entregar a eles a minha virgindade. Na verdade eram uns egoístas que me queriam usar. Que intimidade maior do que a doação sexual se pode dar à pessoa realmente amada? Entende de amor quem entrega a sua intimidade ao namorado de ocasião? Onde está a exclusividade do amor nas relações sexuais descomprometidas de um cuidar do outro para sempre? A reflexão sobre tais perguntas, que nunca me parecem caretices, me fizeram a não desejar compartilhar minha vida com um homem que tivesse dormido com outras mulheres, porque isso deixa marcas profundas. Quando conheci o Júlio e resolvemos namorar, ele logo me foi dizendo que não queria sexo no namoro, e que se eu não concordasse com ele, não precisaria perder o tempo, pois encontraria quem pensasse diferente dele. Menina, era o que tanto queria ouvir de um homem! Diante de tal integridade passei a amá-lo intensamente e me senti segura ao seu lado. Sua atitude era clara: também não queria para esposa uma mulher que – por não saber o que é o amor – tivesse tido experiências sexuais com outros homens. Concluí que as intenções dele eram pra valer e que realmente era amada por ele.

     – Esperto o Júlio, Mariana: nada de carne mastigada! A atitude de vocês me faz lembrar destes versos do Vinícius de Moraes:

     “Se quiser ser somente minha

     Exatamente essa coisinha

     Essa coisa toda minha

     Que ninguém mais pode ter

     Você tem que fazer um juramento

     De só ter um pensamento

     Ser só minha até morrer”

     Continua Mariana:

     – É um belo poema; reflete que o amor deve ser exclusivo e para sempre; se não, não é amor. Os poetas dizem verdades que colhem no fundo da alma, mesmo que lhes custe vivê-las... Ao perceber no Júlio os ideais que julgava importantes num homem, vislumbrei a possibilidade de unir a minha vida à dele. Mas tínhamos que dar passos mais profundos no conhecimento mútuo para a concretização do sonhado ideal de ter a nossa família e a ela dedicar a vida. Então renunciamos a projetos pessoais, entre eles o de não aceitar atividades profissionais que nos arrancassem do lar e da convivência com os filhos: a família seria o nosso maior negócio! Com o noivado o nosso projeto ficou mais próximo e reafirmamos as convicções até então as sumidas. Eram momentos de decisões importantes; não podíamos falhar na escolha da pessoa com quem iríamos casar, pois já casados não seria possível retroceder e recomeçar sem drásticas conseqüências para nós, que nos prometeríamos doar-nos um ao outro para sempre, para sempre, e para os filhos que pretendíamos ter. Por fim chegou a terceira fase: casamos! Sou muito feliz! As desordens que evitei fundamentaram o meu amor a Deus, ao meu marido e aos meus filhos. Sinto-me realizada como mulher...

     Nesse momento do diálogo, Mariana faz inopinada interrupção e diz:

     – Oh, Lídia, derivei demais do nosso assunto! Perdoe-me!

     – Não, Mariana, tudo o que você disse está bem dentro do que vínhamos falando! Confesso que não agi tão prudentemente quanto você! Aliás, fui bem amalucada e não quero que a Verinha siga o meu exemplo e arrisque sua felicidade. O caminho que percorri não é o que quero ensinar a ela. Se o meu casamento dependesse de mim, teria dado tudo errado e seríamos mais uma família destruída. Isso só não ocorreu por causa da humildade, paciência e natural sentido de fidelidade do Carlos. Vejo hoje que durante o namoro não soube avaliar nem perceber essas qualidades nele, decisivas em qualquer casamento; e, se ao invés delas, o Carlos tivesse os vícios opostos, também não teria notado e tudo se encaminharia para o fim. Sendo paciente, ele soube perdoar as minhas falhas de esposa e mãe; sendo humilde, compreendeu as minhas carências e aceitou o meu temperamento, que atribuiu ao fato de eu não ter tido a experiência de pais que colocassem a família em primeiro lugar, pois os meus se separaram cedo. O Carlos também se arriscou, mas calhou encontrar alguém cujo exemplo dos pais feriu tanto que revoltou “ao contrário”, como costumo dizer. Digo isso porque o mais comum teria sido seguir o exemplo frívolo e egoísta dos meus pais, que não foram humildes para suportar as falhas mútuas e as dificuldades que qualquer casal encontra no curso da vida em comum. Quando não vemos bons exemplos, carecemos deles! Ao irem meus pais cada um para o seu lado, a vida do meu irmão e a minha – éramos ainda crianças – tornou-se um inferno de vazios e confusões: ora com um, ora com o outro, ora sem ninguém. Nunca quis imitá-los e desde pequena adquiri o hábito de meditar nas coisas que feriam o meu coração. Essas reflexões me fizeram desejar ter uma família de verdade, pra valer. Cresceu em mim a convicção profunda de não seguir o exemplo deles... Infelizmente isso já não ocorreu com o meu irmão, que anda na terceira união de fato, fazendo sofrer os filhos que vai gerando. Mas, Mariana, fui ingênua ao não intuir que, por não ter aprendido com bons exemplos, a prática me custaria tanto. É aqui onde afirmo terem sido fundamentais as virtudes do Carlos; sempre serei muito agradecida a ele, que se fosse mais prudente – e não tão amalucado quanto eu – não teria se casado comigo!

     Ambas riem. Lídia continua:

     – Percebo que hoje amo mais profundamente o meu marido. Com ele, vivo a experiência de ser amada – já que fui privada da primeira experiência do amor, que é o dos pais –, e de ter uma família de verdade, e não uma “faz-de-conta até que surjam dificuldades”! Dou a vida pelo Carlos. Além do mais, a família dele é muito unida – obra dos meus sogros – e fico feliz por fazer parte dela também. Tenho verdadeiro ódio dessas revistas que insistem em trazer depoimentos de crianças que afirmam gostar de terem dois pais e duas mães, porque ganham mais presentes e têm mais lugares para passear. Nunca ouvi tolice maior e tenho essas revistas por fúteis. Ah, sempre desejei, desde menina, ser entrevistada por uma delas para falar da separação de meus pais! Juro que botaria a boca no trombone e diria todas as experiências ruins que o meu irmão e eu tivemos, e que brinquedo ou passeio algum substituíram. Duvido que fossem publicar essas verdades... Mudei a custo, Mariana, e penso que para melhor, graças ao Carlos e a algumas pessoas que foram as estrelas da noite da minha vida, como a avó que tive. Quero ajudar o meu marido, que também é um pouco cabeça fresca, a perceber as conseqüências do namoro precoce da nossa filha.

          Neste momento Glorinha entra na sala aos choros e sem fôlego. Mostra o braço à mãe, que vê um o esfolado provocado por um tombo no quintal.

– Glorinha, a pele aqui vai se renovar e ficar mais bonita que a anterior. Venha, a mamãe vai lavar o machucado com sabonete, colocar água oxigenada e pomada... Com licença, Lídia, volto num instante.

     Mariana vai à estante do corredor, que abriga em um dos módulos a pequena farmácia domiciliar, e faz o curativo dialogando com a filha. O choro cessa e a menina dá-se conta de que a mãe está com visita, e desde o corredor põe-se a olhar para Lídia, que lhe sorri e acena com a mão. Feito o curativo, a menina insinua retornar ao quintal, mas a mãe a conduz até a amiga, e pede que a cumprimente:

     – Eu sou a Glorinha! A senhora se chama Líndia, né?

     As mães riem. Lídia diz:

     – Gostei do nome que você me pôs! Mas eu me chamo Lí-di-a – diz sorrindo para a menina, e conclui. – É diferente, não é?

     –É sim, viu. Eu tenho uma boneca que se chama Linda. Ela agora está dormindo... Mãe, posso ir pro quintal? O Tonico tá me esperando.

     – Vai. Mas antes despeça-se da Lídia.

     A menina dá um abraço na amiga da mãe, e diz que o irmão a espera no quintal, e que brincam de casinha.

     Ambas observam a menina disparar até o irmão com os olhos fixos no curativo. Mariana diz:

     – As crianças necessitam de irmãos...

     – Puxa, Mariana, a gente se conhece desde o ano passado, quando mudei aqui pro bairro, e já tenho você por uma estrela do meu céu!

     – Uau, que honra! De fato, a gente se foi vendo e conversando na feira, na igreja, no supermercado lá da avenida, e parece que nos conhecemos há um tempão. Bem, Lídia, a sua amizade é para mim um presente de Deus!

     Risos de gratidão. Lídia afirma:

     – Estava tão tensa, mas ouvindo você me sinto aliviada e segura. Segura porque me sinto confirmada em tudo o que sempre acreditei, mas que temia ser apenas ideias pessoais, sem outros fundamentos. Sinto-me com forças para dizer à minha filha tudo em que sempre acreditei.

     Mariana responde:

     – Isso é bom. Mas hoje não basta a intuição de pais para as respostas que os filhos necessitam; é pouca arma para guerra que oferece ataques por todos os flancos: televisão, cinema, revistas, internet, escola, colegas. Com oito filhos, Júlio e eu nos sentíamos inseguros para agir. Então, fomos atrás de bons livros e cursos sobre a educação de filhos; além de infindáveis conversas com amigos de critério. E digo a você, menina, que ainda nos sobram incertezas... Não se deve lutar sozinha nessa guerra.

     – Não é à toa que me sentia perdida! Sou mesmo uma maluca, Mari.

     Mariana sempre ri do modo engraçado como Lídia chama-se a si de maluca, e diz:

     – Educar exige sacrifícios, mas não há alegria maior do que se ver potencializada em cada filho, que chegam bem mais longe do que nós, pais! E com ar divertido Mariana conclui: – Os pais generosos mudarão o mundo!

     – Nunca pensei tão amplamente na missão dos pais. Mas, mesmo havendo razão em suas palavras, não irá demorar muito para que pais generosos mudem o mundo, Mariana?

     – Um geneticista francês disse que lares generosos formarão filhos generosos; e estes, por sua vez, formarão outros lares generosos, numa bela progressão geométrica! Viu só como o mundo é nosso?

     – Seu, Mariana; por enquanto só tenho uma filha. Mas tem lógica esse raciocínio: famílias egoístas gerarão filhos egoístas, pouco dispostos a gerar outros filhos. Ah, ah! Tem lógica esse pensamento: as famílias egoístas irão desaparecer! Essa é boa... E se alguém afirmar que é difícil educar tantos filhos no mundo de hoje, o que você dirá?

     – Bem, como sou mais maluca que a minha amiga Lídia – Mariana faz careta –, porque arreganharei os dentes e mostrarei garras, provarei que o difícil se torna fácil, e o que parece fácil se torna difícil: por exemplo, evitar ter filhos é exatamente o que complica a vida dos casais egoístas!

     Risos. Mariana continua:

     – Ah vá, Lídia, educar filhos não é de matar, e tem as suas compensações. Júlio e eu dividimos a tarefa: yo hablo con las chicas, y él con los chicos! Has entendido, mujer?

     – Si, si. Y que habláis vosotros?

     E deixando o castelhano de lado – língua com a qual ambas as amigas se divertem ao lerem no supermercado as receitas de bolos impressas nas embalagens –, Mariana complementa:

     – Bem, sobre educação da afetividade, que inclui a informação sobre a sexualidade, falo eu com as meninas, e o Júlio com os meninos! A natureza é sábia e está ao lado dos pais: hay que torear cada toro en su tiempo; no tiene necesidad alguna hablar de todos los asuntos con todos al mismo tiempo. Has comprendido, mujer?

     – Si, si!

     – Quer saber como é, na prática, Lídia?

     – Se quero! Desembucha, mulher!

     Risos.

     – Tá bem, desembucho: como as crianças logo percebem a diferenciação dos sexos, com a Margarida, ainda na infância, trato do tema apenas matando a cegonha e sem mais descrições ou aprofundamentos; já com a Janaína, na puberdade ou fase inicial da adolescência, vou um pouco mais adiante; apenas com a mais velha – a Ciça – falo abertamente, indo a fundo nos temas. E quer saber de uma coisa? Você não ficará brava comigo?

     – Ô doido, Mariana, ficar brava com você? Nunca! Pode me dizer o que quiser.

     – Lídia, sinto arrepios quando uma ou outra de suas coleguinhas de magistério se metem nas salas de aulas a tratar da sexualidade, pois sempre agem de forma indistinta, planificada e sem respeitar a idade, capacidade e intimidade da consciência de cada criança! Essa informação pertence a nós, pais. Ufa, fico tiririca quando isso acontece com os meus filhos e vou voando falar com a professora! Nós, pais, somos tontos e covardes ao nos calarmos diante do estrago que fazem. Deveríamos ficar “pês” da vida com escolas que se metem a tratar desse tema assim; se querem ajudar, então ensinem bem os pais, pois são estes que devem tratar de afetividade com cada filho! Viu só, como fico possessa com as suas coleguinhas? Tá brava comigo por ter dito isso?

     – De jeito nenhum! Já ouvi cada barbaridade de algumas colegas. A coisa não me cheirava bem, mas como sempre desconfiei dos meus sentimentos, não dei tanta importância ao fato. Prometo deixar de ser ingênua e preguiçosa, Mariana.

     – Então, tá bem; foi legal ter falado disso com você.

     – Mariana, ao pensar que em breve a Verinha chegará à adolescência, brrr, sinto calafrios!

     – Por que, bobinha? Quantas lembranças maravilhosas a gente guarda desse período!
Lídia faz silêncio; tinha motivos para dizer que seus pais feriram sua adolescência, mas esforça-se por lembrar das coisas boas que vivera nesse período e diz:

     – Sim, as recordações tão gratas de menina na casa de minha avó me fazem concluir que as boas lembranças da Verinha dependerão exclusivamente de mim.

     – A infância é uma bela fase para educar, mas não admite covardias ou acomodamentos – conclui Mariana.

     – Sinto que devo me aproximar mais da minha filha, Mariana.

     – Isso é bom; seja a melhor amiga dela... E se um dia vocês tiverem um filho, ajude o Carlos a conquistar o mesmo ranking com ele: a amizade abre o coração para o diálogo. Se não for assim, a sua filha irá tirar as dúvidas com coleguinhas atrevidas e de cabeça bagunçada.

     – Diálogo?! Tenho tão poucos com a Verinha!

     – Então provoque-os, sem solenidades. Boas conversas nascem de momentos descontraídos num parque, numa trilha. Y que vengan las preguntas! Certa vez me disseram que nunca devemos nos escandalizar com as barbaridade que os filhos nos possam perguntar, para que não percam a confiança em nós.

     – Tudo isso é tão lógico! Mas será que conseguirei?

     – As mães têm tudo para conseguir o que desejam, porque penetram nos filhos com o coração... Para curar os males de um coração, só outro coração.

     – Acabo de me convencer que a Verinha ainda vive a sua infância. Nunca percebi nela as interrogações do amor, nem interesse por garotos. O que ocorreu a ela foi provocado pela pergunta idiota de um menino que caminha sem as luzes dos pais, e porque vem presenciando o mau exemplo de algumas coleguinhas. Tenho esperança de dar à minha filha razões para abandonar essa ideia.

     – Você conseguirá. Ela perceberá que o seu zelo é para o bem dela.

     Lídia olha para o relógio e diz:

     – Mariana, já é quase meio-dia! Vou pra casa esperar a Verinha chegar da escola. Sabe, não vou duvidar mais do meu coração! Chega de me achar antiquada, desatualizada. Nossa conversa acordou muitas certezas adormecidas dentro de mim.

     Antes da amiga partir, Mariana confere a receita de bolo que ambas copiaram da embalagem de um produto da prateleira do supermercado; não quer aventurar-se a enfrentar a massa sem as dicas da experiente doceira Lídia. Despedem-se. Junto à porta da sala, Lídia ouve a última pergunta:

     – A Verinha tem televisão ou internet no quarto dela?

     – Só televisão, Mariana.

     – Olha, Lídia, sugiro retirar esse aparelho de lá. Tenho lido que famílias com maior clima de amizade têm apenas um aparelho de televisão, e que os pais selecionam os programas e fazem deles motivo de unir a família: assistem juntos o futebol com o pai, as boas novelas com a mãe e os desenhos com os filhos. Mostre à Verinha a importância de vocês permanecerem juntos todo o tempo que puderem, principalmente em bate-papos familiares.

     – Mariana, mais uma vez agradeço suas dicas. Vou pensar num modo de conseguir tantas façanhas.

     Já em casa, Lídia recebe a filha com carinho e modos divertidos. Quando a menina insinua ir com o prato para diante da televisão, a mãe diz:

     – Verinha, vamos parlar, como dizem aqui no Bixiga!? Temos falado tão pouco! Sabe, às vezes fico sozinha no apartamento e sinto falta de um bom papo. Me fale da escola, professoras... Você falou com aquele menino que queria ficar com você?

     – Falei sim, mãe. Eu disse que queria ficar com ele e ele me convidou para ir estudar na casa dele.

     – E o que você respondeu?

     – Ah, que ia pedir pra você me deixar. Me deixa?

     – Olha, Verinha, sai dessa! Esse menino não vai dar importância a você, como não dá às outras meninas com quem anda ficando. Eu não confiaria em ninguém que apenas quisesse ficar comigo só para não firmar compromisso mais sério. Fuja desse e egoísta e aproveitador! Diz assim para ele: – “Sai pra lá, chô! Não vem com papo besta pra cima de mim, sua borboleta inconstante. Se você não sabe fazer escolhas na vida, não venha testar mais uma comigo, que não sou pista de prova, não! Sabe o que você é ao agir assim com as minhas amigas? Anote aí: um frívolo, um desleal! Não quero você para mim, não; mereço coisa melhor!” É isso aí, Verinha, diga tudo isso a ele, que será o melhor modo de ajudar esse menino. Vai ser duro para ele ouvir estas verdades, mas não tiro nadinha do que falei.

     A filha almoça rindo com o show que a mãe deu ao representar com caretas o suposto diálogo com o menino. A garota aprecia a conversa, que trata de um assunto seu, e pergunta:

     – O que é um frivúlo, mãe?

     – Frí-vo-lo é uma pessoa leviana, superficial, inconstante. É o tipo que não se sacrifica por ideais ou deveres que custam esforços, e por isso vive em busca de sensações novas, agradáveis e fáceis de realizar.

     – Entendeu? – pergunta Lídia.

     – Entendi.

     – Bem, Verinha, queria dizer que errei ao permitir qualquer espécie de namoro pra você. Não quero que você fique com esse ou com qualquer outro menino.

     – E se ele não fosse um frivúlo, você me deixaria ficar com ele?

     – Também não; a vida tem um momento certo para cada coisa! Namorar na sua idade é sair de viagem sem destino certo e sem levar a bagagem necessária. Vai chegar o dia em que você irá procurar um bom rapaz para namorar.

     – Ah, mãe, mas ele é um frivúlo bonito!

     – Filha, sai dessa também! Não se engane: a beleza não é o cúmulo da felicidade. Carinha bonita não sustenta o dia-a-dia de uma vida em conjunto, não! E sabe por quê?

     A menina enquanto almoça faz um não com a cabeça.

     – Boniteza é casca, embalagem atraente, mas o produto pode ser ruim. É como a fotografia ou pintura de uma pessoa: nada diz como ela é por dentro! A beleza passa com o tempo, com a doença. Uma relação não pode se sustentar só na beleza, filha.

     Então a mãe recolhe do cesto ao lado da poltrona uma revista que estampa a foto de um jovem modelo, e diz à filha:

     – Veja esta foto – mostra-a. É um rapaz bonito, não?

     – É.

     – Você é capaz de me dizer se ele é leal, justo, generoso, bom estudante?

     – Não!

     – Saberia me dizer se é desleal, injusto, egoísta ou preguiçoso?

     – Também não. E se ele é frivúlo dá pra saber, mãe?

     A mãe ri e corrige a filha:

     – Diga, frí-vo-lo. Não, não dá pra saber se ele é frívolo.

     – Verinha, as pessoas são um mundo! O amor – que você ainda não conhece – não se sustenta na beleza física, mas no profundo das pessoas; naquilo que elas trazem por dentro. Uma escolha errada estraga a vida da gente. Guarde o seu coração e o seu corpo para quem merecer. Imagine-se casada com um desses caras bonitinhos – e aponta para a revista –, que depois se engraça com outra bonitinha e dá um bonitinho pé no seu traseiro! O que você iria fazer com filhos bonitinhos e abandonados por um pai bonitinho?

     – Mas, mãe, algumas meninas da minha classe ficam com os meninos sem pensar em casar com eles; só ficam.

     – Tá certo, filha, não é preciso namorar para casar, mas para encontrar um amor verdadeiro. E quem encontra esse amor, a família é o melhor lugar para vivê-lo.

     – Mas elas não encontraram um amor verdadeiro?

     – Uma paixão não é um amor verdadeiro. Descobrir esse amor exige algo mais da vida: o garimpeiro não encontra uma pedra preciosa tão facilmente; ela se esconde atrás de um montão de coisas que não interessam, e que se chama ganga. Lembra-se daquela explicação que o vovô deu no Natal, mostrando como produziram a pedra do anel que ele deu a você?

     – Lembro.

     – Essas meninas andam se entregando a qualquer rapaz de ocasião.

     – Só porque eles são bonitinhos?

     – Não só por isso; mas também porque elas acham que viver um relacionamento é viver um amor. O mal se oculta no que poderia ser bom, e se serve de coisas boas insinuando suprir carências onde elas não existem.

     – Não entendi, mãe.

     – Verinha, as crianças não estão preparadas para o amor entre um homem e uma mulher, porque isso tem consequências profundas!.. O perigo está quando o mal se apresenta como um bem.

     – Mas elas não podem procurar um amor?

     – Pelo natural da idade elas não estão preparadas para os compromissos que o amor exige. Não se brinca com o coração, filha, porque ele se vinga tornando-se mau. Esse jogo é perigoso e bem cedo mostra a sua cara feia. Sabe, diz o poeta Rilke, que ando lendo, que o amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta; é a maior e última prova; é obra para a qual todas as outras são apenas preparação. As pessoas jovens, diz esse poeta, têm que aprender a amar numa longa aprendizagem que exige amadurecimento; ser um mundo para si mesmas, por causa de um outro ser. Do amor que lhes é dado, diz ele, os jovens deveriam servir-se unicamente como um convite para trabalhar em si mesmos. A fusão com outro é para eles um alto risco, porque ambos são algo inacabado. A impa­ciên cia é um erro tremendo; é um desgoverno de si, uma desordem. É preciso esperar, filha.

     – Mas o que poderia acontecer?

     – Muita coisa já vem acontecendo, filha. Meninas com doze ou treze anos grávidas não lhe dizem nada? Estão se estragando para o amor! Verinha, Deus perdoa sempre; os homens perdoam de vez em quando; mas a natureza não perdoa nunca. Não se deve andar com o coração na mão oferecendo a quem quiser. Dê tempo ao tempo. Quem abusa da natureza logo conhecerá o sofrimento. Lembra-se da história que seu pai contou de como não soube dominar um cavalo que lançou ele morro abaixo? A natureza tem seu ritmo; forçá-la é como meter-se a dirigir um carro sem saber como se faz. A inexperiência e o desgoverno de si só acumulam desacertos. Que futuro se pode esperar disso, menina? Perde-se a si, e perde o outro.

     – Mas o tempo demora pra passar; a gente não pode adiantar ele?

     – As árvores têm o seu ritmo de crescimento, e não forçam a sua seiva para antecipar o futuro. Entre a flor e o fruto há um tempo necessário; o forçar faz os dois se perderem.
A menina termina o almoço e se põe pensativa, deslizando o dedo sobre o cabo do garfo. A mãe recupera a palavra:

     – Verinha, tá lembrada de que até os seus 5 anos a gente ficava deitada no chão, uma ao lado da outra, olhando para o céu e conversando?

– É mesmo! Foi lá na vila onde a gente morava! Já tinha me esquecido disso!

     – Puxa, que saudades daquele tempo! Nunca mais fizemos isso. Que tal a gente ir pro terraço do prédio e deitar no chão pra continuar a nossa conversa como antigamente?

     – Vamos! Vai ser divertido.

     Mãe e filha sobem de elevador até o último andar, e disputam corrida no lance de escada que conduz ao terraço do prédio. Escolhem um local onde o sol é oblíquo, vindo por trás delas, sendo interceptado pela parede da caixa de água. Deitam-se no chão, uma ao lado da outra e apoiam a cabeça sobre os braços. A menina ri e diz:

     – Parece que essa parede alta está em movimento! – diz a menina.

     – As nuvens que passam dão essa impressão... Verinha, hoje ouvi uma frase que nunca esquecerei: a gente vale pelo amor que tem na vida. As suas bonecas começam a não representar algo importante para você, que passou a perceber valores maiores. E há valores pelos quais vale a pena entregar a vida.

     – E como vou descobrir o que tem valor?

     – Comece a gostar do que é limpo, verdadeiro, virtuoso, que seus olhos estarão preparados para descobrir o que tem valor.

     – Mas se eu ficar com esse menino não vou descobrir o que é o amor verdadeiro?

     – Um namorico levará você a ter vícios e maus costumes, que é um despenhadeiro. O caminho da virtude é laborioso, mas conduz a um lugar seguro, lindo! Veja as coisas pelo seu fim e não pelos seus inícios. Verinha, onde você acha que o relacionamento dessas suas amiguinhas irá terminar?

     – Não sei – responde a menina.

     – É fácil descobrir: quem se condiciona a decidir pelo instinto e não pela cabeça, recebe o nome de escravo das suas paixões; quem vive dando o coração e o corpo a pessoas erradas se desqualifica para o amor, que tem leis próprias.

     – Que leis?

     – Olha, Verinha, sua inexperiência de vida ainda não permite essa compreensão. Mas um dia você amará um homem, e ele a você, então é quando se percebe que esse amor exigirá tudo de cada um: fidelidade, que é a exclusividade desse amor; e permanência, que é a confiança de que um não abandonará o outro quando surgirem dificuldades. Sem esses compromissos não há chão para o amor verdadeiro. Tá entendendo?

     – Mas porque tem que ser único e para sempre?

     – Pelas conseqüências que tem. Você é uma conseqüência do meu amor pelo seu pai. Que acha se eu for embora atrás de outro homem e deixar vocês dois?

     – Você não pode fazer isso!

     – Percebe como o amor tem suas leis? Como serei feliz não amando a Deus, a seu pai e a você? As leis do amor não podem ser quebradas pelo fato de andar por aí um monte de caras mais bonitinhos que seu pai – que aliás tá ficando gordo e feio e precisa se cuidar melhor!

     – Viver junto para sempre não é escravidão?

     – Menina, eu pensava que você era ingênua! Vejo que a ingênua era eu! Como as coisas mudaram, meu Deus!... Bem fui livre para escolher o seu pai e com ele formar uma família; se agora não sou livre pra fazer outras coisas, é porque já fiz a escolha que quis. Não somos escravos das escolhas que são fruto da liberdade, mesmo que essa escolha comprometa a vida toda. A liberdade, Verinha, é um dom para ser usado em escolhas, e quanto maior é o ideal abraçado, melhor empregada terá sido a liberdade. Quem não faz escolhas para não comprometer a sua liberdade, está sendo um egoísta e um imprestável que dá um fim errado à sua liberdade, que não é um bem intocável, absoluto e descomprometido. Se, em nome da liberdade, me sentisse autorizada a deixar você e o seu pai, dizendo com isso ser mais livre, no fundo estaria pensando unicamente em mim, e seria escrava do meu egoísmo. Pior seria se eu abandonasse vocês em nome do amor! Seria a prova mais absoluta de que nunca teria entendido o que é o amor, nem nunca teria amado vocês.

     – Minha classe está cheia de crianças que os pais estão separados. Eu não quero isso, não. Mas as minhas amigas que ficam com os meninos não poderão encontrar também um amor de verdade?

     – Não sei. Só o tempo dirá. O que sei é que os homens são exigentes, e na hora de escolherem uma mulher para formar a sua família, procurarão uma moça que não tenha acumulado tristes experiências de ter entregado o coração e o corpo a tantos outros... Filha, você se acha preparada para a vida e para a escolha do amor de um homem bom?

     Verinha nunca hesita em suas respostas:

     – Não.

     – Então, minha cara, não seria melhor conhecer primeiro as possibilidades da vida para depois pensar na pessoa que irá acompanhá-la na construção do seu projeto de vida?

     – E o que é um projeto de vida, mãe?

     – Olha, Verinha, eu nunca pensei em falar de projeto de vida tão cedo com você. Mas com essa sua conversa de querer “ficar” com um menino, não vejo outra saída. O que é um projeto de vida? Bem, não sei se vou saber explicar, mas pense que cada pessoa se vê como algo não definitivo, mas como um projeto que se vai concretizando ao longo do tempo. Nunca estamos satisfeitos conosco próprios; sempre temos esperança de chegar a ser algo melhor do que somos, como quem deseja alcançar uma plenitude... Está me entendendo?

     – Estou.

     – Então, é aqui que entra o projeto de vida: seria como dar finalidade, sentido ao nosso viver, que não pode andar à deriva. E como tudo na vida é questão de escolha, somos fruto das nossas escolhas, ou da falta de escolhas: a omissão deixa marcas também. Aponte alto no seu projeto de vida!

     – Quero ser famosa, mãe!

     – Famosa? Ser conhecida por todos?

     – É.

     A mãe, perplexa, põe-se sentada e olha para a filha que continua deitada. Lembra-se de que a Mariana disse para nunca se escandalizar com o que os filhos dizem. Então ri, deita-se novamente e diz:

     – Verinha, isso não é apontar alto. Desculpe a minha sinceridade, mas desejar fama é idiotice e fraqueza de gente com baixa auto-estima, não satisfeita consigo mesma, e que julga ser os outros que determinam seu valor. Quem tem interioridade rica não precisa da afirmação dos outros. Os caminhos da felicidade seguem para o de dentro da gente, e não para o de fora. Por isso, filha, a vida só dá certo quando é bem pensada.

     – Então, então, por isso mesmo é que você tem que fazer um projeto de vida bem grande pra mim!

     – Darei os elementos para uma boa decisão; mas decidir sobre a vida que pretende levar será tarefa só sua.

     – Ah, mãe...

     – E pode tirar o cavalinho da chuva com esse tal de “ficar” se esfregando em moleques, que isso é sem-vergonhice pura e não fará parte do seu projeto de vida, pelos menos enquanto seu pai e eu tivermos o direito de decidir por você, e você o dever de nos obedecer.

     – Ah, mãe...

     – O enamoramento é coisa muito séria; um dia ele chegará ao seu coração. Então, você e o seu namorado se verão como um bem precioso a ser protegido um pelo outro. Quem apenas “fica” não quer proteger, mas utilizar.

     A mãe, que está de calça comprida, tem grudada na roupa a poeira do terraço. Mas não importa-se e cruza a perna direita sobre o joelho esquerdo. Bem relaxada, está pronta para ouvir os interrogantes da filha.

     – Mas, mãe, e se um dia eu gostar de um rapaz que não goste de mim, e só queira me utilizar, o que devo fazer?

     – Será um momento duro para o seu coração. Mas é preciso ser forte para não se arrepender mais tarde, e procurar outro. Há no mundo dois bilhões de homens; por que teimar com um que não compreenderá você?

     – E se o rapaz gostar de mim?

     – Mesmo que o rapaz corresponda ao seus sentimentos, nada estará assegurado se ele não tiver as qualidades para a fidelidade no amor. Não basta seguir os impulsos do coração; muitos ingredientes são necessários para o amor dar certo. Verinha, você não disse que muitas crianças da sua classe têm os pais separados? Isso significa que faltaram ingredientes no amor desses pais. Lembre-se do tal cara bonitinho e frívolo: se perceber que o seu coração se inclina por um sujeito assim, peça ajuda a Deus e à Nossa Senhora para dizer não a si mesma.

     – Tá bom... Mas, mãe, faz um projeto de vida para mim! Vou pegar minha caneta para anotar ele!
Verinha faz menção de se levantar, mas a mãe a segura e diz:

     – Já disse que será tarefa sua, depois de descobrir um pouco da vida, e do que você poderá dar a ela.

          – Ah, mãe, descobrir o quê?

     Por exemplo, as qualidades que Deus deu a você! Essas qualidades deverão ser colocadas ao serviço dos outros... Puxa, Verinha, eu não estou parecendo hoje uma filósofa, como aquele cara do filme que a gente viu, ouro dia?

     – Tá, sim.

     – Então você vai ter que me aguentar! Quem manda fazer tantas perguntas.

     A menina ri.

     Posso dizer mais umas lorotinhas pra você, filha?

     – Pode.

     – Bem, queria dizer que sempre vivi me comparando com os outros, até que descobri que isso era uma besteira muito grande. Um dia me coloquei diante de Deus e disse assim pra Ele: “Olha aqui, meu Paizinho, sei que o Senhor é muito bom e distribui seus dons a mãos cheias para muita gente. E se o Senhor é tão bom assim, devo me alegrar e não me entristecer. Prometo não me comparar mais com ninguém; sou sua obra e estou contente com o que sou!”. Sabe por que estou dizendo isso a você?

     – Não.

     – Para você não ficar triste porque não consegue fazer o que os outros fazem. Descubra-se e faça os outros felizes com o que você é.

     – Tem alguma coisa que eu já poderia ir colocando agora no meu projeto de vida?

     – Deixe-me pensar.... Deseje uma vida honesta, simples e com o necessário para viver: o luxo escraviza. Não seja egoísta, porque os egoístas são uns infelizes que querem sempre mais, e como ninguém consegue ter tudo o que quer, andam sempre tristes e angustiados.

     – Mãe, se você não quer fazer o meu projeto de vida, porque então você decide um montão de coisas para mim todos os dias?!

     – Ah, malandrinha! É verdade que seu pai e eu decidimos um montão de coisas em seu lugar, porque queremos o seu bem, e sempre que falta a você a capacidade de escolher o melhor: quando você era bebê, escolhíamos os seus alimentos, mas agora já não fazemos isso; ainda escolhemos os seus remédios e, recentemente, a sua escola. Não agimos assim quando percebemos que você pode decidir sozinha. Por isso, seu pai e eu decidimos que por enquanto nada de namorar moleque algum; pode tirar o cavalinho da chuva, que não vai mesmo! Antes da sua chegada, conversei meia hora por telefone com o seu pai e decidimos proibi-la de fazer isso. Como disse, chegará o dia em que a decisão será sua; é só aguardar um pouco porque a vida passa a galope. Este assunto ficou bem claro? Desculpe a minha insistência, mas é que não quero que isso entre por um ouvido e saia pelo outro.

     – Tá claro, sim... Mas se tenho que aprender muitas coisas para depois decidir bem, por onde você vai começar?

     – Gostei da pergunta! Começarei por Deus, que é a base de tudo; sem Ele a gente anda às cegas pelo mundo e a vida acaba num vazio: você precisa ir à missa, conversar com Jesus Cristo e Nossa Senhora, e ser muito amiga dEles; deve conhecer as incríveis histórias da Sagrada Escritura, que farei questão de contar. Depois, vou iniciar você nas artes: teatro, literatura, pintura! Iremos juntas – e carregaremos o seu pai –, às feiras de artesanato da Praça da República, do Embu, da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros; vamos a pinacotecas, museus, exposições de quadros. Mas queria que você amasse muito a literatura, que é, digamos, amar os livros. E digo isso não porque gosto deles, ou porque sou professora de português, mas porque os bons livros fazem a gente descobrir a vida, descobrir a nós mesmos e descobrir as pessoas, que é descobrir o centro de um mundo, porque as obras narrativas de grande valor convidam a gente para o diálogo, que é o modo de as pessoas se conhecerem! Tenho lido bastante, não é verdade?

     – Tem; acho que até demais.

     Ambas riem. Verinha, sempre clara e contundente, foge dos eufemismos.

     – É, tenho lido muitas coisas, sim; mas conversando hoje com a Mariana, percebi que descuidei de leituras importantes. Farei também o meu projeto de vida, porque a formação da gente não termina nunca, e incluirei uma série de leituras que já deveria ter feito. Seremos duas leitoras vorazes, certo?!
Ambas riem.

     – E a música, Mãe?

     – Puxa, como não mencionei a música, que tem o dom imediato de tocar a alma e inspirar pensamentos profundos! Vamos incluir no nosso roteiro as audições musicais organizadas em parques e salas da cidade! Ah, claro, ouviremos CDs de músicos importantes e assistiremos vídeos de grandes compositores e intérpretes.... Verinha, tudo isso não é entusiasmante?

     – Ô se é!

     – E você acha que meninas da sua idade que andam galinhando atrás de moleques têm coração para tudo isso?

     – Não.

     – Não mesmo, filha! E o pior é que farão coisas de que um dia irão se arrepender amargamente!

     – Mãe, gostaria de começar a ler livros de verdade!

     – Vamos começar por livros próprios da sua idade. E não vale ficar apenas no relato das historias: a gente vai ao mais profundo, à mensagem da obra! Ao ler Pinóquio, é preciso descobrir o poder deformante da mentira – a mãe faz um gesto de terror, com as mãos em forma de garra junto às têmporas, tal como a Mariana o fez num divertido momento do diálogo que tiveram horas atrás.

     – Legal, quero ler o Pin Ócrio, mãe! Vamos comprar ele agora, e um montão de outros livros?!

     – Olha, Verinha, os livros custam caro. Vou inscrever você em algumas bibliotecas municipais e na do Metrô. Mas compraremos livros, sim, para ir formando a nossa biblioteca familiar. Tenho uma ideia pra gente começar a nossa biblioteca!

     – Que ideia?

     – A gente vende a televisão do seu quarto, já que temos uma na sala, e com esse dinheiro compraremos livros em sebos e brechós da cidade. Em poucos dias teremos muitos livros! Você concorda em se desfazer daquela ladra que vem roubando todo o seu precioso tempo de leitura?

     – Oba, concordo, concordo! Quero no lugar dela uma estante cheia de livros!

     – Então, garota, vamos voltar para o nosso apartamento! À tarde iremos à loja de eletrônicos usados do seu Paulo, e venderemos a sua tevê. Dali, a gente vai direto para o nosso alvo: livros!

     – Ah, mãe, vamos já; vamos já!!!

     – Vamos, sim; mas, só depois que você me ajudar a lavar os pratos e arrumar a cozinha. Verinha, sabe o que também des cobri hoje? Que seu pai e eu precisamos de outro filho e você de um irmãozinho! Sei que seu pai gostará desse presente.

     – Nossa, mãe, eu queria tanto ter um irmãozinho!!!

     A menina se põe a dar pulos no terraço e a bater palmas, repetindo a palavra irmãozinho.

     – Então vá se preparando para ajudar o seu maninho, garota. Farei o possível para que ele chegue em nove meses... Filha, me diz uma coisa: todas as meninas da sua classe ficam com meninos?

     – Não, mãe, só algumas.

     – E você é mais amiga das que ficam com meninos ou das que não ficam?

     – Tenho mais amizades com as que namoram.

     – Entendi. Sabe, gostaria de dar a você duas tarefas: a primeira é que fale com as namoradeiras que estão erradas em fazer isso; a segunda é que convide para a sua festa de aniversário as meninas que você ainda tem pouca amizade, e que não são namoradeiras. Faz isso?

     – Faço.

     Na escada, Lídia diz para si, em tom baixo:

     – Mulher, você nasceu para ser feliz! Isto agora vai...

     – Mãe, a senhora falou comigo? – pergunta Verinha, que desce na frente.

     – Não Verinha – e Lídia pensa: – “E esse vinha sendo o meu erro!”

     – Filha...

     – Que, mãe?

     – Nós nascemos para ser felizes!

Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. Livro à venda na Livraria Cultura.