« O Melão »
É sábado. As áreas administrativas do Grande Magazine não têm expediente; apenas funcionam as de vendas. A folga sabatina neutraliza as forças dos funcionários do Departamento Pessoal, que jazem na cama em suas casas. Minto, há um heroico funcionário que levantou-se antes do sol despontar lá pelos lados da zona leste para travar batalha contra as trevas que subjugam a cidade: é o Zégas!
Então a madrugada em seus estertores presencia duas figuras contrastantes erguendo a enegrecida porta de aço da Quitanda Ultramarina: o gordo seu Manoel e um pirralho magrelo por ajudante. Num só golpe a porta é alçada e se enrola feito brachola junto ao teto encardido do pequeno comércio, despertando as preguiçosas aranhas em suas teias.
O que faz o Zé numa quitanda? Isso exige explicação: seu Manoel tem um expediente lascado aos sábados, a ponto de ficar sem tempo até para o xixi. Vive reclamando: “Raios, p’r que esses br’sileiros deixam as compras pr’sábadu? Já me fârrtei d’lhes d’zer qué durante a s’mana faç’antregas a d’micílio, ora pois”. Penetrando com dificuldade na alma do povo habitante deste lado do mar, propenso a empurrar com a barriga até o final da partida o que puder ser postergado, decidiu então chamar “o s’nhor Z’gas p’ra lhe dar u’a m’zinha. Ai pr’que é munto esperto o gajo désse m’nino”. O garoto fechou negócio, pois em casa a situação apertara: com a doença da Janaína foi um tal de sair dinheiro e entrar remédios que fez gosto. Além disso, a turma da rua anda à caça de grana para a nova bola de futebol de salão.
À espera da acomodada clientela, o Zé ajeita na prateleira uma penca de bananas tirada do engradado. Irrompe um freguês. Tipo enorme, porte atlético e ar antipático. O sujeito aproxima-se do garoto e ambos pintam um quadro cômico, tão ridículo como a azeitona ao lado da jaca. Com voz tonitruante o mal-encarado diz:
– Garoto, você tem melão?
Os peixinhos do aquário do seu Manoel ocultam-se atrás das pedras, tamanha foi a vibração no seu mundo líquido.
– Tenho sim, senhor – diz o Zé sem olhar para o freguês e atento à arrumação.
– Então me dá meio melão.
Estupefato com o descabido pedido, que fez arder as orelhas do Zé, a arrumação é interrompida. Com os braços esticados e as mãos apoiadas nas pencas, o garoto funga e esfrega o nariz no ombro da camisa. Com o rabo do olho, o Zé mira seu interlocutor, medindo-o de alto a baixo sem disfarçar a perplexidade do que ouvira: meio! Ao achar baita desfaçatez e tremenda ca-
ra-de-pau alguém pedir meio melão, o Zé pensa consigo (só pensa!): – “E o que faço com a outra metade? Enfio no seu rabo?”. Como disse, apenas pensou tal incomodidade ao freguês.
Ainda boquiaberto com a desaforada solicitação, o Zé emburra. O cara volta à carga:
– Não ouviu? Estou pedindo me-i-o melão – acentuando bem a maldita medida.
Pronto, terminou por azedar o Zé, que responde indignado:
– Não vendemos me-i-o melão. Ou o sinhô compra um in--tei-ro ou não leva ne-nhum: é mole ou quer mais?
Em pensamento, tão só em pensamento, o Zé finaliza: – “E vai derrubar muro a cabeçadas e chupar prego até virar parafuso, seu bocó, cara de ostra mal-amada”.
Ah, vida, vida acerba – diria um poeta –, és tão complicada... Por que, vida, a encrenca anda sempre atrelada à tua garupa?! Atira longe do teu dorso, oh vida, essa amazona malsã que nem aos peixes ou às crianças deixa livre de tão molesto fardo! Oh, vida, bela és, mas não andes em tão má companhia!...
O certo é que vida não tem culpa por haver gaiatos com especial afinidade para atrair confusão.
O moleque cutucou vespeiro. Diante da negativa, o brutamontes franze a testa e as pestanas se contorcem fazendo surgir um olhar fuzilante e terrível dando a entender que algo ruim, muito ruim, ruim mesmo, irá ocorrer – coisa que o Zé percebe, sem demérito seu, mas até cego o faria. As mãos do tipo – enormes! – friccionam-se para melhor perpetrar o iminente estrangulamento ou coisa do gênero. Os lábios da fera grudam-se tremelicando de ódio e são engolidos, mastigados e retornam retorcidos e encarnados como mandioca vermelha... Brrr, se não fossem os ossos do ofício este pobre narrador daria no pé para não ver o que vai acontecer...
Pasmado, o Zé aprecia essas transmutações dignas de estudo. Ignora, porém, como estancar a descontrolada reação em cadeia. A gota d’água que o faz ligeiro encontrar saída é observar a ascensão dos ombros do sujeito até às orelhas e o peito inflar-se triplicando de tamanho. Subitamente, o rosto do monstro ganha tonalidade roxa, fazendo saltar veias enormes e esverdeadas junto às costeletas. Um franzido feito beiço de botocudo crispa-lhe a testa comprimindo o globo ocular, enchendo-o de milhares de veios que tingem de escarlate a parte branca dos olhos.
Trepidante, ainda que curioso para presenciar o termo da metamorfose, o Zé resolve não se arriscar mais e dá ouvidos aos conselhos de sua mãe: – “Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”. Então diz ao homem:
– Bem, espere um pouco. Vou perguntar ao seu Manoel se posso vender meio melão, tá?!
Ditas tão sábias e mágicas palavras, o Zé – que sente ânsias de correr – vira-se e dissimula sua paúra caminhando pausadamente ao balanço de um assobiozinho ridículo e dando cocurutos com o nó do dedo médio nas melancias enfileiradas. Vai até o fundo da quitanda e, não percebendo que o Leviatã o seguira conservando as feições de minutos atrás, abre uma cortina imunda, penetra no cubículo onde seu Manoel soma duplicatas a pagar e diz:
– Seu Manoel, tem um sujeitinho lá fora com cara de cu de galinha, cabeça de jararaca podre e olhos de sapo, querendo comprar meio melão e...
O Zé sente um bafo no pescoço e estremece. Um calafrio perpassa-o da nuca aos pés. De soslaio tenta olhar para trás anelando por tudo no mundo que ali não esteja quem imagina. Bobagem, a última fungada do tipo soltou muco, que caiu no pescoço do Zégas e dissipou a dúvida. Com tal emoliente descendo-lhe pela espinha, os ossos do moleque derretem e suas pernas não sustentam o peso do corpo e envergam-se, fazendo-o experimentar a sensação que sente diante de seringas de injeções, cenas de carnificina cirúrgica, hospitais, bisturis e congêneres. Encurralado, o moleque suspira pelo dom da agilidade angélica que falara o padre Domênico no último domingo: pretende picar a mula até a Arábia ou a Mongólia – tanto faz desde que seja o mais longe possível –, já que um anjo lá chega em fração de segundos. Sente arrebatadora vontade de gritar – Paiêêê, manhêêê –, mas até a voz enguiçou. Vamos, Zé, aja varonilmente; ponha-se à altura dos problemas profissionais, homem!
Então o garoto aproveita a medrosa dobrada de pernas e simula coçar o calcanhar, enquanto matuta como sair incólume de terreno minado. Em segundos, viaja outra vez àquela zona do seu cérebro prenhe de conhecimentos inúteis, e no gaveteiro das piadas – outra vez! – desentoca algo para remediar a encrenca. Com desenvoltura e a maior calma do mundo, diz:
– Ah, seu Manoel, e o distinto cavalheiro aqui atrás quer a outra metade! – apontando solenemente o ser pré-histórico, que agora baba, como se soubesse da presença dele ali o tempo todo. Continua:
– Posso servi-lo, seu Manoel? Será um imenso prazer!
O Português que estranhamente perdera a voz – coisa nunca acont´cida, ora pois –, achou estupenda a sugestão do Zé, e com acenos de mão indica que presto lhe venda, doe, faça o que quiser com o maldito melão, e enxuga a testa de tão repentino e estranho acesso de suor.
Poucos minutos e o distinto cavalheiro se despede com me-i-o melão. Para agasalhar a fruta, o Zé até fez um especial pacotinho com celofane e papel de presente. Também facilitou o transporte aos delicados dedinhos do freguês com lindo lacinho feito alça.
Dá para acreditar que o Zé rejeitou a gorjeta oferecida afirmando fazer parte de suas obrigações profissionais atender bem aos fregueses?! Que hipócrita!... Bem, a outra metade do melão, como diz a gíria quase incorporada ao vernáculo, o Zé traçou-a.
Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.

