O que é o Família em Contos?

Família em Contos é um site dedicado à educação, cultura e entretenimento. Missão.
Pais e educadores encontrarão aqui boas histórias sobre comportamento para dialogarem com os filhos de modo atraente e criativo.

O Portal do Professor do MEC incluiu o Site Família em Contos em sua página. Peça também ao seu colégio ou instituição para colocar um link com o Família em Contos!

Qual a tarefa dos contos na atividade formativa?
Acreditamos que os enredos literários, ao saírem do plano cotidiano pessoal para imergirem na trama de outras vidas, provocam o imaginário do leitor e permitem discernir o caráter benéfico ou maléfico de certas atitudes. Com isso, o conteúdo da leitura é transformado em vivência pessoal e contribui para o processo educativo ao colaborar na formação da afetividade de crianças, jovens e adultos.

A Família Larleto é formada pelo casal Júlio e Mariana e seus 8 filhos. Pode iniciar a leitura dos contos por qualquer um deles. Mas, desejando conhecer melhor os membros e o ambiente dessa família, tenha um pouco de paciência e leia os contos iniciais. Não receie ser apresentado ao Zégas, que é bastante aprontão, pois no fundo é um bom sujeito.

Jornais e rádios estão autorizados a utilizar estes contos para fins educativos e de entretenimento, mas devem mencionar que estão disponíveis no site www.famiíliaemcontos.com.br

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Os principais contos deste site encontram-se reunidos no livro Família em Contos, que pode ser adquirido junto à Editora Quadrante.

O Zégas


Tem treze anos e em seus olhos brilham o ardor, o entu­sias­mo e a marrudice. É magrelo de ruindade, dizem. O cabelo castanho claro eternamente indisciplinado referenda-o como cara invocado que não leva desaforo para casa. Acham que tem fogo no rabo, pois não para quieto. Seu português é sofrível e não está nem aí para melhorá-lo, apesar das insistentes cor­reções dos pais (tem vergonha de falar bonito; a turma da rua não perdoa esses tipos).

     Suscetível ao extremo, salta da alegria incontida à casmurrice retida em segundos. É sincero, leal e teimoso... Teimoso mais do que ele só burro velho, bem velho. Não gosta de banho nem de matemática. Tem coleções de tudo: maços de cigarros vazios, caixas de fósforos, tampinhas de garrafas, selos, figurinhas... Todas inacabadas. Gosta de andar descalço, sem ca­misa e com calção de bolso profundo onde carrega o impensável: bolinhas de gude, pião, fieira, munição de pedras para estilingue e, ultimamente, um pente, porque anda enamorado da atriz que viu na TV (pode topar com ela na rua; nunca se sabe...).

     Durante a semana anda melhor vestido por imposição profissional: é office-boy do Grande Magazine – Loja de Departamentos. Teimou que queria ser bói e tanto fez que obrigou o pai a conseguir mil autorizações para emancipá-lo e poder ocupar o cargo, a título de estagiário, menor aprendiz e outros buracos da lei. O pai permitiu que esse seu rebento trabalhasse para ti­rá-lo da vadiagem, já que estudar não é muito com ele não.

     O nome do moleque? Ah, sim: José. É o encarregado de cuidar do pequeno galinheiro da família, que não lhe poupa, entre outras, das seguintes fainas: recolher ovos, buscar ser­ragem nas marcenarias para forrar o chão sob o poleiro, pegar folhas de verduras em duas feiras do bairro – da Rua Maria José e da Praça Roosevelt – para alimentar o populacho do quintal. E justamente por causa do encargo de cuidar das galinhas é que os seus amigos começaram a chamá-lo de Zé das Galinhas ou simplesmente Zé Galinha.

     Quebrou a cara de vários deles pela troça, e percebeu que depois disso o epíteto se alastrou mais que tiririca em terra adubada; então, deixou de partir para o pau e os amigos, ao perceberem que ele não estava nem aí com a brincadeira, esqueceram do apelido. Para o gasto do dia-a-dia a turma chama-o de Zégas, redução de Zeguinha, ou simplesmente Zé, aliás, o mais utilizado. Esses apelidos extravasaram a esfera do bairro e derramaram-se na empresa. Foi culpa dele mesmo, que organizou um racha de futebol entre as duas turmas. Em casa chamam-no apenas por Zé, ou Zezinho.

     Listar-lhe os defeitos é canja; as virtudes, um aperto. Mas como meter a picareta é fácil, e canseira o edificar, mordo a língua e calo o bico. Que falem os fatos... Leia as histórias no link "Lista dë Contos"





 

Terça-feira
Mar302010

« Convalescença »

   O bói do Departamento Pessoal do Grande Magazine é o encarregado de distribuir as correspondências que chegam do correio para os funcionários da empresa. No crachá, um nome: José Larleto.

     Bater-perna, estar com pessoas e prosear é com esse bói. Daí seu gosto pelo ofício e a razão de sempre responder incansável e animosamente perguntas do tipo: “Tem algo pra mim, Zé?” – indagação invariável do chefe da contabilidade. “Nada, não, seu Aristodemo!”.

     Vibra ao trazer surpresas boas, anunciando-as desde longe, o que faz benfazeja sua presença:

     – Cornélio, lá vão, meu; são duas desta vez, cara... – e as cartas da namorada sobrevoam a seção e aterrizam na mesa do interiorano estagiário da auditoria, poupando o bói de circundar corredores feitos por um mar de divisórias de meia altura.

     O encargo de distribuir correspondências, aliado ao de bói do Departamento Pessoal, faz o pirralho saber de trás para frente e da frente para trás, os nomes e sobrenomes dos chefes – até dos estrangeiros – e de todos os funcionários do Magazine. E assim vai se divertindo, digo, trabalhando.

     Bem, e o que faz o Zé neste momento?

     Neste momento? Cantarola! E separa correspondências. É certo que o regulamento não permite devaneios musicais durante o expediente, mas quem irá persuadi-lo a calar o bico? O desgramado diz que é apurada técnica para imprimir ritmo ao trabalho, e se torna imbatível na tarefa!

     O carteiro acaba de despejar um bojudo malote de correspondências, rapidamente destrinchado pelo bói. As cartas, em lotes por andar, espalham-se ao longo do balcão lateral à sua mesa... Sim, senhor, mesa do Zé, com quatro palmos de comprimento e uma etiqueta: Zé Larleto. Porém, dedo e meio abaixo, outra personaliza melhor o tipo: Zégas. Por clamorosa injustiça, só os chefões têm placa de latão dourado: Sr. Gouveia, Chefe do Departamento Pessoal; Sr. Milton, Chefe do Crédito e Cobrança; Sr. Maia, Chefe do Crediário. O bói do Departamento Pessoal tem garra profissional e sonha alto: Zé Larleto, Chefe das Correspondências. Ostensivamente, ele deixa um velho micro quebrado sobre a mesa. Para bem da verdade, não necessita escrever com essa birosca; mas o diacho é que ela dá mais cachê.

     Bem, agora o moleque recolhe os grupos de cartas para distribuí-los desde o 11º andar, onde está o Departamento Pessoal, passando pelos intermediários, que albergam as seções administrativas e lojas, até chegar ao subsolo com os setores de expedição, manutenção e estoque do Grande Magazine.

     Ainda junto ao balcão, onde ajeita as correspondências pronto para sair, percebe a aproximação de duas funcionárias do departamento que retornam do cafezinho a passo de tarta ruga:

     – Sabe, Dirce, o seu Gouveia esteve com aquela rubéola fortíssima; mas agora está em convalescença.

     – Ah, é mesmo?! Que resistência ele tem! Apesar da idade está em forma, não?

     O bói vai saindo com um arzinho hipócrita de pouco interesse em bisbilhotar conversa alheia. Assobia à surdina e, metido em pensamentos, se desatenta da pergunta de praxe do seu Aristodemo:

     – Como é que o seu Gouveia, que estava ainda ontem com robre... rube... robreóla, pôde ir parar em Convalescença!... Onde fica esse lugar?

     No 10º piso, o Zé faz a inevitável parada dos bóis no prazenteiro e sossegado Setor de Arquivo, situado num recôndito do andar, alcançável só depois de um labirinto infindável de corredores e divisórias, desestimulantes a pernas mais avançadas em idade, que as evitam. Pobre em arquitetura, o Arquivo é privado de janelas, e se compõem apenas de armários e prateleiras. A porta de meia altura, mantida fechada, acoberta os garotos sentados no chão e os isola do mundo, deixando apenas exposto o grandalhão Brachola, bói da diretoria, que se senta entre dois armários para amenizar os riscos. A essas benesses, que subtraem os garotos dos chefes e secretárias, acrescenta-se dona Ikeda, nissei encarregada do setor e muito querida dos garotos. À beira de se aposentar com mirrado salário, a responsável pelo arquivo remedeia a situação tecendo roupas de tricô durante o expediente para vendê-las às funcionárias.

     Aí estão vários amigos do Zé matando o tempo, como se diz.

     – Oi turma; oi dona Ikeda! A senhora já terminou o sorvéter da dona Dita, lá do Departamento Pessoal?

     – Já, Zé, mas não é sorvéter. É suéter.

     – Ah,  bom. Obrigado.

     Hipnotizada pela ágil dança das agulhas, que vão dando forma à linha e prendendo em cada ponto seus pensamentos e esperanças, dona Ikeda submerge-se no tricô.

     – Tudo bom, Zégas? – pergunta um dos garotos que já estava no local.

     – Tudo. Quem  ganhando na dama?

     – É esse cocô de rato aí que tá robando.

     – Robando não, seu burro: é roubando; e isso eu num  não. Você  apanhando porque é grosso – retruca.

     – Calma, pessoal... Acho que tenho boas notícias!

     O tabuleiro de damas é empurrado para o lado.

     – Que notícia, Zé?

     – Acho que o seu Gouveia viajou!

     – Viajou!? Uau, que bom! – respondem.

 

     O senhor Gouveia é o terrível chefe do Departamento Pessoal, encarregado, entre outras fainas, das sanções disciplinares e controle dos cartões de ponto... Também não autoriza a sacar mais de um adiantamento de salário por mês... Isso que é osso duro de roer...

     – Quanto tempo ele vai ficá fora? – pergunta Dentinho.

     – Bem...

      , fala logo, Zégas!

     – Calma, Ferrugem! Sei não. Ontem ele estava com essa tal de rubreóla...

     – Nossa! Quem é ela, Zé?

     Francisco Leitão, apelidado de Chico Porco, sem dar-se conta – receita da imprudência – levanta uma infundada suspeita que beirou a calúnia:

     – Não seja inguinorante, Chico; é a esposa dele!

     – Não é não, Ferrugem – diz Brachola –; a mulher dele é dona Rutnéa. Eu vi ela quando o Govis – alcunha do senhor Gouveia entre os garotos – me mandou comprar uma lâmpada de geladeira e ir levar pra ela na casa dele. Me danei todo porque tava quase na hora de eu ir embora pra escola...

     – Calma, pessoal. Rubéola é uma doença – diz o Zé.

     – Oba, doença! Será que ele vai poder voltar a trabalhar?!

     – Puxa, Brachola, não seja ruim assim. Lembra quando seu Milton queria mandar você embora e o seu Gouveia ti transferiu de setor?

     – É mesmo...

     – Deixa de papo-mole e vamos aos fatos, pessoal – interfere o nervoso Tico, o menor da turma em estatura e pavio.

     – Pois então, outro dia, a dona Maria me pediu pra levar uns remédios pro Govis na casa dele. Ohomê tava de cama, todo encolhido e com a cara pintada de pontinhos vermelhos... E sabe onde ele hoje?

     – Onde, Zégas?

     – Fala logo.

       em Convalescença!!! A Dirce e a dona Maria é que falaram isso.

     – Puxa, onde fica esse lugar? – pergunta Chico Porco.

     – Vai sabê – completa Dentinho.

     Neste instante chega o Pelé, bói da Perfumaria, tido como o mais intelectual da turma porque lê jornal, ainda que só a parte esportiva.

     – Pelé, onde fica Convalescença? – pergunta ansiosamente o Chico.

     – Vocês não sabem? Já sei, fugiram da escola, eh, eh...

     – Vou dar um pau nesse criôlo!

     – Calma, Tico.

     – Desembucha logo, Pelé...

     – Tudo bem, Ferrugem: Convalescença fica ali pros lado de Florença...  dito – responde Pelé com ar triunfante.

     – Caramba, isso deve ficar no fim do mundo...

     – Onde Judas perdeu as cuecas – remenda Pelé. Florença fica ali pelos lados da Finlândia, Tibete – conclui.

     Tamanha asneira dita com ar de autoridade e tão convictamente faz a turma sorrir orgulhosa de ter só para ela um companheiro tão culto. Entreolham-se apontando o Pelé com o queixo, estupefatos com tanta sabedoria junta.

     – Se seu Gouveia  em Convalescença...

     De novo Pelé interrompe a digressão, desta vez a do Ferrugem:

     – Se o Govis  lá, pessoal, vamos ficar um tempão sem vê a cara dele. Talvez um mês ou dois, porque do jeito que ele é pão duro vai voltar de navio.

     Obas, iupis e vivas eclodem no Setor de Arquivo. O alarido faz dona Ikeda emergir do tricô e lembrar aos garotos o adiantado da hora. Antes de partirem, traçam planos. Ferrugem se lança:

     – Amanhã, antes de vir pro trabalho, vou comprar uma pasta de lustrar sapatos que um camelô vende numa latinha do tipo exame de fezes, e que dá um baita brilho no couro.  sempre atrasado e nunca consigo parar pra comprar a bichinha. Com ela vou ganhar um monte de fregueses do bairro no meu ponto de engraxate de domingo.

     – Eu vou num boticário que ouvi dizer que tem uma pomada pra tirar espinhas.

     – Então compra uma pra mim, Dentinho; depois ti pago.

       bom, Brachola, ti trago.

     A alvissareira notícia dispersou a todos com o sorriso de quem antegoza as férias. O Zé prossegue a distribuição das cartas em ritmo de passeio no Ibirapuera.

     Finda-se mais uma jornada de trabalho no Grande Magazine. Os funcionários saem pela portaria rumo às suas casas. Os garotos na calçada aguardam os companheiros de bairro ou zonas da cidade e formam grupos com destino aos terminais de ônibus do Parque Dom Pedro, Bandeira e Paissandu; estações do Metrô ou suburbanas de trem da Luz e Roosevelt; há os que vão a pé a bairros centrais como Liberdade, Bixiga, Bom Retiro, Cambuci, entre outros.

     Na manhã seguinte, incomum silêncio dói em ouvidos acostumados ao alarido de garotos atrás da bola de meia ou tampinha de garrafa nos corredores dos andares até um minuto antes do expediente. Admirável é o quietismo das secretárias, pois pirralho algum as enche de perguntas ou conta vantagens e lorotas de danceterias e namoradas que nunca existiram. Muito estranho este silêncio.

     Os funcionários do Departamento Pessoal veem o seu bói perambulando pelos corredores da seção, dando a impressão de trabalhar concentradamente. Puro engano: o Zé foi ao armário do banheiro, vestiu o uniforme e apanhou um calhamaço de gibis trocados na semana anterior. A viagem inesperada do chefe reduzirá a labuta e propiciará ocasião para botar em dia a leitura. Senta-se e com um impulso apoia o encosto da cadeira na parede atrás de si, e esta fica com os pés dianteiros no ar, fazendo companhia aos pés do bói, que balançam descontraidamente.

     A hora vai adiantada. Impressoras, telefones, carimbos e papéis grunhem no departamento: é final de mês e a folha de pagamento está atrasada! O Zé, tragado pelo almanaque, não se afeta com o rumor da seção: sua mesa, junto à sala do chefão, situa-se em local nobre e reservado do andar, brindando-lhe um remanso de paz.

     A leitura dos gibis é interrompida por segundos e seu leitor espraia-se anelando uma laranjada gelada (com duas pedras de gelo; não mais). Volta ao texto, quando ouve o tossir de alguém no corredor atrás da parede onde sua cadeira se apoia. O nhéc, nhéc do solado de borracha lhe é familiar. “Não, não pode ser: Convalescença, Convalescença perto de Florença, lá pelos lados da Noruega!”, pensa e repele a nefasta lembrança. A expectoração e o andar característicos avizinham-se mais e mais: – Deve ser o seu Manoel da limpeza com sua bota de borracha... Não, o nhéc, nhéc dele é diferente e... aaaaahhhhhhhh” – o chefe surge abrupto:

     – Sss, seu Gouveia?!!! – exclama desconcertado o Zégas.

     A besta da cadeira principia a deslizar sulcando fundamente a massa fina da parede e, qual indócil corcel, lança o seu Qui -
xote sobre a pilha de gibis no chão. Caído de barriga para cima e a cabeça entre os pés da cadeira espatifada, o Zé observa:

     – Esses voos noturnos são ótimos, não, seu Gouveia?!

     O chefe, sem ânimo para diálogos, não compreende a ponderação do bói:

     – Senhor José Larleto, acompanhe-me até a sala, sim?

     Antes de cruzarem a porta, o chefe lhe cede cavalheirescamente a passagem. Fecha-se a cancela e a reprimenda dura um quarto de hora. A voz do senhor Gouveia modula-se do tenor ao barítono tão celeremente quanto uma escala de semifusas. O departamento treme e silencia. Triste sina a do bói, pensam. Ninguém ousa intervir nem gostaria de estar na pele do garoto. Corre o boato de gibis espalhados até o 10º andar. Puro exagero.

     Findado o interminável discurso, o chefe pergunta:

     – Tem algo a proferir, senhor José?

     – Sim.

     – E o que é, senhor José?

     – O senhor me empresta aquele dicionário? – aponta-o.

     – Pode pegá-lo e vá trabalhar.

     Saindo da sala, o Zé imbica ávido no verbete pivô do desastre:

     – Essa não... Aaaahhh sapo zoiudo... Aaaahhh criôlo desgraçado! Con-va-les-cen-ça: restabelecimento da saúde; melhora!... Sabidão duma figa... Florença, Finlândia, Tibete... Vou arrancar o saco daquele tiziu.

     Ao aterrizar na Perfumaria, o Zégas observa movimentos de tropas no local. Todos os bóis, belicosos, zanzam por lá com ganas de enterrarem as mãos no Pelé: será fatiado e os nacos, feitos penduricalhos, enfeitarão os corredores e lojas do Magazine.

     Ferrugem gastou duas horas no encalço do camelô, que mudara de local para driblar a Prefeitura. Retornando à empresa brindou-o um recado: “Passe em minha sala. Gouveia”.

     A providência imediata do Chefe do Pessoal ao regressar à empresa foi inspecionar o comportamento dos garotos... Quem? O Chico Porco? Pergunta de difícil resposta. Nem sinal dele, mas foi visto por acaso pelo assistente do senhor Gouveia lá pelos lados da Rua José Paulino, quando examinava uma camiseta coloridérrima, bem na hora do expediente. Também aguarda-o um bilhete semelhante ao do Ferrugem...

     Dentinho tardou-se na compra de uma bola de futebol de salão para o time da rua. Ao chegar à empresa, topou com advertência funcional pelo acúmulo de atrasos no mês, devendo subir ao Departamento Pessoal. Antes passou na Perfumaria ansiando ajustes preliminares.

     Chega o Brachola:

      Cadê aquele pilantra? Vou matar, esganir... não, esganar ele.

     O Brachola, sumamente irado, trombou com o seu Gouveia quando desfilava pela oitava vez no quarto andar onde, todo lampeiro e de camisa florida, exibia-se à jovem e iniciante funcionária do Setor de Pacotes. Levou monumental bronca pela falta do uniforme. A funcionária ria-se dele pelas costas do Chefe do Pessoal.

     E o Pelé? Onde se meteu o pirralho? Seu plano: aguentar na seção até a hora da primeira matinê da cidade, e enfunar velas até ela. Ao divisar seu Gouveia irrompendo na loja, viu negrejar seu horizonte e pressentiu tempestade das grandes. Desesperado, clamou à chefe:

     – Dona Mariquinha, onde a senhora esconderia o seu filho se uma manada de serpentes quisesse matar ele? Rápido, responda que  em perigo de morte!

     Ela, antiga vendedora da seção, corrige o coletivo e soca o garoto no armário de perfumes franceses, escondendo a chave.

     Pelo buraco da fechadura, Pelé observa as manobras na seção, e treme diante da encrenca em que se metera. Adeus, matinê...

     A súbita evaporação do Pelé obriga a turma a montar esquema de revezamento na Perfumaria, com turnos de meia hora cada um. Ao surgir a caça, o sinal convencionado deverá ser dado ao bói da sobreloja, que o repassará através da janela ao espião do 1º andar; este informará pelo interfone ao delator do 2º, que comunicará ao alcaguete do 3º, e assim até os facínoras do 6º andar. Os demais pisos terão condições de ler o cartaz a ser afixado na janela do 6º andar, que dá para o pátio interno do prédio: “tá lá”.

     Nem sinal do bói da Perfumaria. As horas de trabalho arrastam-se pesadamente. Final de expediente. Outros compromissos reclamam os garotos: jogo no Pacaembu, aulas, trem do subúrbio... No dia seguinte acertarão as contas com o Pelé. Aaah, se acertarão...

     Uma hora depois de encerrada a faina, quando dona Mariquinha já deixara em ordem os delicados vidros nas prateleiras e conferira a féria do dia, Pelé é convidado a desentocar-se:

      , pode sair; já foram embora.

     Sonolento e dolorido pelo dia encalacrado em vidros, mimosas caixinhas, e queixo metido entre as pernas, Pelé agra dece:

     – Puxa, obrigado, dona Mariquinha. A senhora salvou a minha vida.

     – É, Pé, a turma parecia brava. Vá pra casa agora. Amanhã você me conta o que aprontou...

     O garoto parte nauseado pela forçosa inalação de mil odores de perfumes. Sua roupa exala forte aroma de flores do campo, das montanhas, dos bosques, prados e de onde mais possam nascer flores perfumadas. Ao percorrer o viaduto do Chá rumo ao Parque Dom Pedro, um suposto carregamento floral – chamado Pelé – desperta as abelhas de uma colméia instalada na copa de uma palmeira dos jardins da Praça Ramos de Azevedo. Por sorte, os voos estavam cancelados pelo adiantado da hora. E assim, costurando os pedestres, Pelé segue pela Rua Direita e General Carneiro, mergulhando no ônibus da Vila Alpina, depois de furar a fila, o que causou alguns protestos.

     Condução lotada. O Pelé vai chapado no meio do cor redor. Um aroma incomum ao fim de expediente é captado pelas pituitárias dos passageiros. Uma fungada aqui, outra ali: sniff, sniff. Olorosa fragrância evola-se no ar, convidando a descobrir a flor desabrochada que a exala. Estranho, nem sinal de moça, ou velha rebocada. Incansáveis, os olhares perscrutadores não cessam a busca. Nem sinal. O grato odor certamente não vem da avenida, junto da qual escorre a gosma fétida do Tamanduateí; é originado intra-portas! Pares e pares de olhos dialogam auxiliando-se na busca... Todos os passageiros foram conferidos? Esperem, dizem um par de olhos e um queixo assinalantes: faltou aquele crioulinho junto à roleta! Várias sobrancelhas encarecem ao baiano vizinho que examine o suspeito. O espião funga no cangote do Pelé – sniff, sniff –, e sorri confirmando a cisma com um “sim” de cabeça.

     Um maldoso cochicho: – Deve ter saído a tampinha do de so do ran te dela.

     Sonora e anônima voz diz:

     – Huuummm, como a dama-da-noite  perfumada!

     Risos. Pelé finge não ouvir. A farpa poderia ter outro endereço...

     – Ôôô, pessoal, ninguém vai dar lugar pra flor de jasmim sentar? – risos. Todos os olhares dirigem-se ao garoto. A reação é imediata:

     – Flor de jasmim é a sua vó, seu piolho de saco de boi, seu, seu (censura), seu...(outra censura).

     Gargalhadas. A reação do leãozinho aos cutucões anima a matilha a provocá-lo. Quanta maldade há no coração humano, não Pelé? A corja hilariante encontra desleal modo de amenizar o monótono percurso até a Vila. “Essência dos deuses”, “néctar de cebola”, e outras, oh, acúleas setas são lançadas. Pelé tem farto e pouco refinado repertório de palavrão e gasta-o prodigamente.

     Em casa, o garoto vai direto ao tanque e enche-o até a borda. Depois, despeja a lata de creolina que repousava no armarinho da parede e mergulha para desinfetar-se dos mil perfumes. Pobre Pelé, não sabia que era alérgico a tal química. Resultado: febres, convulsões, tremedeiras. O farmacêutico da vila aplicou-lhe injeção e outras drogas. A assistente social e o médico do Grande Magazine foram visitá-lo no dia seguinte em sua casa e lhe prescreveram repouso absoluto por uma semana.

     No retorno à empresa, Pelé é agasalhado pelo companheirismo e alegria dos garotos, que agonizavam de remorsos ao re-
cordarem os pensamentos ruins que aninharam quando o amigo poderia ter... ter... morrido, brrrr. Então, deram boas vindas ao campeão de damas do arquivo e esqueceram as dores do pas sado... É característica dos garotos não guardarem rancor por muito tempo. O Zégas até se confessou com o Pe. Domênico.

     As coisas poderiam terminar por aqui, mas para o Pelé não terminaram não.

     Semana dura foi para ele a do regresso às tarefas. Apesar do aconchego da turma, o aroma dos perfumes, principalmente os franceses, emborcavam-lhe as tripas. A dezenas de metros as suas narinas captavam o vidro aberto por uma freguesa. Terrível era recolocar nas prateleiras os frascos deixados sobre o balcão. Para eliminar o olfato, Pelé tentou se resfriar pondo-se de frente ao ventilador e lambendo sorvete após estafante partida de tênis de mesa. Fracassado no intento, conjeturou, num insólito pensamento, o ineditismo de se inventar perfumes inodoros... Dá para acreditar?

     A proximidade do dia dos namorados faz crescer o movimento da seção. Cena grotesca é ver o bói da perfumaria atender às solicitações das freguesas encrencadas com frascos de tampas emperradas: prende a respiração, estica os braços para a direita até não poder mais e apoia o queixo no ombro esquerdo até não mais poder. Aberto o vidro, atira-o sobre aparador e dispara ao outro extremo do balcão. De verdade causa estranheza às senhoras tal menino.

     Se desgraça conclama mais desgraça, sofrimento maior se dá quando desajeitada madame derrama colônia de alfazema no chão. Dona Mariquinha tenta limpar, mas solicitada aos berros pelas freguesas, se viu impedida de realizar um ato de caridade e Pelé concluiu o serviço sob o olhar preocupado e vigilante da chefe, dividido entre o garoto e as desalmadas clientes.

     Por fim chega o domingo, dia dos namorados. Nem é preciso dizer o que há no pacotinho – e posto a fazer rima – que a bela Joaninha que tem prendidas em duas marias-chiquinhas sua carapinha, dá ao Pelé com o fim de firmar compromissos futuros. Ao desfazer o último laço o garoto ruge com a inopinada visão:

     – Aaaaaaaaaah, aaaaaaah, grrrrrrruuunnnn, uuuuiii!!!

     A bobinha emociona-se crendo no acerto do presente. Mas logo se dá conta do engano ao ver o presenteado desaparecer dos seus olhos, sem a oferta:

     – Ai, esses meninos...

     E o pai da menina foi brindado pela eterna namoradinha com dois pacotinhos. Agradecido, seu Dito ficou meditando na frase que acompanhou os dois mimos:

     – Pai, a vida é tão imprevisível...

     A enigmática sentença fez o seu Dito passar o dia examinando-se. Não querendo falhar em sua missão de pai de tantas filhas, reuniu-se com a patroa para conferir como andavam as coisas.

 

 

Conto publicado no livro Famílía em Contos: os Larletos, de Ariovaldo Esteves Roggerio (Editora Cultor de Livros, São Paulo, 2009), e no site www.familiaemcontos.com.br. O livro encontra-se à venda na Livraria Cultura.